top of page
Buscar

Esporte é saúde . Movimento é vida . Ciência é o caminho

5 de set.
4 min de leitura

Existe um erro conceitual muito grande quan

do alguém afirma que esporte não é saúde, porque uma coisa é reconhecer que determinadas formas de treinamento podem produzir riscos, lesões ou consequências negativas quando mal conduzidas, e outra completamente diferente é utilizar esses episódios para negar o papel do esporte na promoção da saúde.

O esporte, quando praticado dentro de princípios de treinamento, com progressão adequada, recuperação suficiente, acompanhamento competente e respeito às características individuais, é uma das mais poderosas ferramentas que temos para desenvolver e preservar a capacidade funcional do organismo ao longo da vida.


Não estamos falando apenas de uma sensação subjetiva de bem-estar ou da percepção de que “fazer esporte faz bem”. A literatura científica demonstra, de maneira consistente, que níveis mais elevados de atividade física estão associados a menor risco de mortalidade, doenças cardiovasculares, diabetes, alguns tipos de câncer e diversos outros desfechos relacionados à saúde.


E existe uma informação particularmente interessante quando observamos justamente aqueles que levam o treinamento físico ao extremo: os atletas olímpicos apresentam, em diferentes estudos, uma longevidade superior à da população geral, apesar das enormes exigências físicas, fisiológicas e psicológicas impostas pelo alto rendimento.


Uma metanálise envolvendo mais de 42 mil atletas de elite encontrou mortalidade por todas as causas significativamente menor nesses atletas quando comparados à população geral. Estudos específicos com atletas olímpicos também encontraram maior expectativa de vida e menor mortalidade em comparação com grupos de referência.


Isso evidentemente não significa que o alto rendimento seja isento de riscos. O esporte competitivo pode envolver cargas extremamente elevadas, lesões, sobrecarga, períodos de recuperação insuficiente e situações fisiológicas que exigem monitoramento e conhecimento especializado. O que esses dados mostram é algo muito mais importante: a existência de risco não permite concluir que o esporte deixou de ser uma prática relacionada à saúde.


É justamente nesse ponto que precisamos separar o esporte da maneira como ele é praticado.


Uma pessoa pode desenvolver uma lesão treinando de maneira inadequada, mas isso não significa que o movimento seja prejudicial. Um atleta pode sofrer uma consequência decorrente de excesso de carga, recuperação insuficiente ou uma preparação mal planejada, mas isso não transforma o treinamento em inimigo da saúde. O organismo humano é responsivo ao treinamento porque possui uma extraordinária capacidade de adaptação; quando recebe estímulos adequadamente planejados, ele modifica sua estrutura e sua função para responder melhor às demandas impostas.


É assim que desenvolvemos força, potência, capacidade cardiorrespiratória, resistência, coordenação, eficiência do movimento e tolerância às diferentes demandas físicas que encontramos na vida e no próprio esporte.


Treinar é provocar adaptação, e é justamente por isso que existe ciência do treinamento.


A pergunta correta, portanto, não deveria ser simplesmente se o esporte é saúde ou não. Deveríamos perguntar qual esporte, para qual pessoa, com qual objetivo, em qual dose, com qual progressão e sob quais condições, porque a qualidade da prática interfere diretamente na relação entre estímulo, adaptação, desempenho e risco.


Também precisamos ter cuidado com a maneira como construímos nossas conclusões. Um atleta se lesionou, um fisiculturista apresentou uma complicação, um corredor morreu ou determinado treinamento produziu uma consequência negativa são acontecimentos que precisam ser investigados com seriedade, mas nenhum deles, isoladamente, permite concluir que o esporte é contrário à saúde.


Quando transformamos casos individuais em uma condenação do esporte, deixamos de fazer ciência e passamos a fazer narrativa.


A medicina não deixa de ser saúde porque uma cirurgia pode apresentar complicações. A fisioterapia não deixa de ser saúde porque determinado tratamento pode ser mal prescrito. A nutrição não deixa de ser saúde porque uma estratégia alimentar pode ser inadequada para determinada pessoa. Da mesma maneira, o esporte não deixa de ser saúde porque determinadas pessoas podem praticá-lo de maneira inadequada, excessiva ou sem acompanhamento apropriado.


O problema, muitas vezes, não está na existência do estímulo, mas na forma como esse estímulo é aplicado.


Por isso, talvez devêssemos abandonar essa necessidade de escolher entre “esporte saudável” e “esporte perigoso” e começar a discutir aquilo que realmente importa: a competência para utilizar o exercício e o treinamento de maneira adequada para cada indivíduo, respeitando sua história, sua capacidade de recuperação, seu nível de treinamento, seus objetivos e as demandas às quais será submetido.


Porque existe uma diferença enorme entre alertar sobre os riscos do esporte e construir um discurso que faça as pessoas acreditarem que praticá-lo é, por definição, uma ameaça à saúde.


O primeiro caminho produz conhecimento e melhora a prática. O segundo apenas produz medo.


E isso é particularmente preocupante quando parte de profissionais que deveriam estar entre os maiores incentivadores de uma população fisicamente ativa. O mundo já oferece motivos suficientes para que as pessoas sejam sedentárias, para que tenham medo de se movimentar, para que abandonem o esporte diante da primeira dificuldade e para que enxerguem o próprio corpo como algo frágil que precisa ser protegido de qualquer esforço.


Nosso papel deveria ser exatamente o contrário: ensinar as pessoas a desenvolver capacidade, tolerância, autonomia e competência física para que possam se movimentar durante toda a vida.


Podemos discutir lesões, podemos discutir excesso de treinamento, podemos discutir riscos cardiovasculares, podemos discutir doping, podemos discutir erros de prescrição e podemos discutir todos os problemas existentes no esporte de alto rendimento. Aliás, devemos discutir tudo isso, porque quanto mais conhecimento produzirmos sobre esses fenômenos, mais seguros e eficientes poderão ser os processos de treinamento.


O que não podemos fazer é transformar os problemas existentes na prática esportiva em uma justificativa para negar os benefícios do próprio esporte.


O esporte não precisa ser isento de riscos para ser saúde. Ele precisa ser compreendido, planejado, individualizado e praticado com competência.


E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem trabalha com exercício, treinamento e esporte: não utilizar nossas experiências negativas para afastar as pessoas do movimento, mas utilizar ciência e conhecimento para fazer com que elas possam praticá-lo melhor.


Porque, no fim, defender o esporte não significa ignorar seus riscos. Significa ter conhecimento suficiente para compreender seus riscos, controlar aquilo que pode ser controlado e preservar aquilo que o esporte oferece de mais valioso: a possibilidade de construir um ser humano fisicamente mais capaz, mais adaptado e mais preparado para viver.

 
 
 

Comentários


© Todos os direitos reservados Performa

bottom of page