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A INFÂNCIA GRITA POR MOVIMENTO

8 de set.
3 min de leitura
Em um mundo marcado pelo sedentarismo infantil, ainda existem crianças sendo afastadas das academias simplesmente por serem crianças. O medo do treinamento de força permanece, muitas vezes, maior do que a preocupação com as consequências de uma infância fisicamente inativa

Desde o nascimento, o corpo humano se desenvolve enfrentando forças. Para sustentar a cabeça, o bebê precisa vencer a gravidade. Para sentar, estabiliza o tronco. Para ficar em pé, produz força contra o solo. Para andar, correr e saltar, precisa sustentar, acelerar, desacelerar e reorganizar o próprio corpo. Cada conquista motora exige que músculos, tendões, ossos e sistema nervoso respondam a cargas progressivamente maiores.

A força participa do desenvolvimento humano desde o primeiro movimento. Durante uma corrida, uma aterrissagem, uma mudança de direção, uma brincadeira de luta ou um salto, a criança pode receber forças elevadas em intervalos muito curtos. Em alguns jogos, essas ações se repetem dezenas ou centenas de vezes. Ainda assim, essas experiências costumam ser vistas como naturais, enquanto levantar um haltere leve, empurrar uma máquina ou aprender um agachamento desperta medo.

Essa diferença de percepção não se sustenta fisiologicamente. Uma máquina não é perigosa por ser uma máquina. Um haltere não se torna inadequado apenas por possuir peso. O risco depende da carga escolhida, da técnica, da organização do exercício, da supervisão, do ambiente e da capacidade individual da criança. Todos esses fatores podem ser controlados dentro de um programa bem conduzido.

Treinamento de força para crianças não significa reproduzir o treinamento de adultos em corpos menores. Significa ensinar a criança a controlar o próprio corpo, produzir força, desacelerar, aterrissar, empurrar, puxar, carregar, sustentar e estabilizar. As cargas devem ser ajustadas à experiência, à competência motora, ao estágio de maturação e à resposta individual, e não apenas à idade registrada no calendário.

Quando existe orientação adequada, o treinamento de força contribui para o desenvolvimento da coordenação, da estabilidade articular, da capacidade muscular, da saúde óssea e da confiança para participar de diferentes atividades físicas. Também prepara o corpo para suportar melhor as exigências dos esportes, das brincadeiras e da vida diária.

O risco merece atenção. Pesos podem cair. Equipamentos podem ser utilizados de maneira inadequada. Uma carga excessiva pode ultrapassar a capacidade da criança. Mas esses são argumentos a favor de ensino, supervisão e planejamento, e não da proibição.

O fogo também apresenta riscos. Por isso, ensina-se a utilizá-lo com responsabilidade. Uma criança que nunca aprendeu sequer a acender um fósforo não está necessariamente mais protegida. Pode estar apenas despreparada para o momento em que precisar lidar com ele.

Com a força acontece algo semelhante. Afastar a criança de qualquer experiência estruturada com cargas não elimina as forças que atuam sobre seu corpo. Elas continuarão presentes quando correr, saltar, cair, lutar, brincar ou praticar esportes. A diferença é que a criança poderá enfrentar essas situações sem ter desenvolvido a capacidade necessária para absorvê-las e controlá-las.

O corpo infantil é plástico, adaptável e biologicamente preparado para responder ao movimento. Isso não autoriza excessos, competição por cargas ou treinamento sem critério. Exige conhecimento para oferecer estímulos compatíveis com cada etapa do desenvolvimento.

A infância não precisa ser protegida da força. Precisa aprender a produzi-la, controlá-la e utilizá-la. Proibir por medo pode parecer cuidado. Quando essa proibição afasta a criança do movimento e impede o desenvolvimento de suas capacidades físicas, ela passa a produzir outra forma de risco: uma geração com menos força, menor competência motora e pouca preparação para as exigências do próprio corpo.

Em um mundo de crianças cada vez mais sedentárias, negar oportunidades seguras de fortalecimento não protege a infância. Limita seu desenvolvimento pleno.

 
 
 

1 comentário


luisveneziani
08 de set.

Sensacional!!! A cultura do treinamento de força para crianças deve ser mais divulgado, incentivado e acompanhado por profissionais capacitados e atentos aos inúmeros detalhes desse trabalho. Muito obrigado Professor Mário Pozzi por compartilhar tanto conhecimento e orientação.

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